![](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg6wSwqawxnxL3AEW0j6ZlnUHlW6xwEqn-i6M_TG6U7htyfL9qrF28Haut5A4RwpIx406gcB4bOnZwPSdpXkAgJue1cjLDGct6dllf8MwPx4INbIjh7bNjHh5uFwVufgAEA0DYzn3Fxj2XL/s1600/Capa-page-001.jpg)
Há dias em que me sinto
lasso, e me pende fraco
o corpo no leito tão desleixado;
são dias em que me finto
e deixo para trás a sombra
perdida de mim
e vivo vidas estranhas,
entre a vigilia e o sono,
longe da terra enlutada...
podem chamar-me madraço,
mas então eu sem nada fazer
escalo a Torre de Babel,
vou-me a templos assombrados,
oscilo negligente
na pontinha de um cordel
suspenso nas muralhas de um castelo...
e, sem no entanto alcançá-lo,
deixo ao menos para trás
as águas frias do fosso;
fosso, meu quotidiano, onde atroam
misérias, pruridos, estranhos
pudores, e a voz sangrenta
dos motores dos cadafalsos
automáticos.
Mas quem quererá saber
das minhas viagens de cabeça?
Os mundos por que espreitei?
E eu aqui mudo e quedo!
Dou logo a seguir um salto,
sopro à pressa o pó ao quarto,
recomeço a lide a pôr
em, dia, a criar a sincronia
a sincronia entre a imaginação
e a mão que pode defender
da Letargia.